Gêneros de Jogos – Aventura

26 08 2007

Além das duas grandes categorias de jogos, os jogos também se dividem em diferentes gêneros. Essa divisão é importante pois, além de facilitar a busca por material técnico necessário para o desenvolvimento do jogo, também facilita a escolha do título pelos jogadores, pois dão a eles a segurança de comprar um título alinhado com seu gosto pessoal.

Jogos de aventura se baseiam na exploração de um cenário, onde para se passar de um local para outro o jogador é geralmente obrigado a resolver algum tipo de quebra-cabeças. Os primeiros jogos desse gênero eram baseados em texto (como na série Zork). Havia um interpretador para identificação dos comandos dados pelo jogador, que podia usar sentenças simples como go north ou throw bomb. Os jogadores navegavam de sala em sala, coletando itens que os ajudavam a resolver os mais diversos tipos de problemas.

Tentaculo Roxo, vilão do jogo Day of the Tentacle Mais tarde, a indústria de jogos começou a associar gráfico ao texto. O parser foi substituído por uma interface com um conjunto limitado de comandos. Alguns jogos do gênero ficaram muito famosos, tais como Maniac Mansion, Day of the Tentacle e Full Throttle, todos da Lucas Arts; e as séries King Quest e Larry, da Sierra.

Em 1993, uma empresa chamada Cyan, criou um jogo chamado Myst. Esse jogo possuia um mundo enorme, muito bonito, que usava técnicas de modalagem 3D muito mais bonitas do que as do jogo de mesmo gênero na época. Apesar disso, ele eliminou quase totalmente a presença de uma história atrativa, deixando o jogador apenas com diversos quebra-cabeças em cada local onde visitava. Você não podia morrer, mas não havia qualquer tipo de ajuda ou forma de saber como se guiar pelo jogo.

Belos cenários em MystO jogo se tornou um grande best seller, com mais de 12 milhões de cópias vendidas, apesar de sua premissa simples. Infelizmente, é também creditado a esse jogo a morte do gênero de Aventura. Após Myst, muitas pessoas passaram a associar o gênero a um jogo parado, sem muita história e de difícil solução.

Uma iniciativa relativamente recente da TellTale Games, está tentando, com bastante sucesso, trazer novamente a vida o jogo Sam&Max, nos moldes do original Hit the Road, da Lucas Arts. Ao invés de um jogo longo e complexo, a empresa está optando por títulos mais curtos, onde os dois personagens resolvem um pequeno mistério, tais como faziam nas tiras de jornal e gibis que deram origem a dupla.

Ação e aventura com o Pr�ncipe da Pérsia em Sands of Time.Hoje em dia, o jogo clássico de aventura praticamente desapareceu e ninguém sabe exatamente o porquê. Atualmente, os jogos de aventura são em sua maioria jogos em primeira e terceira pessoa. Além disso, é comuns a mistura com o gênero de ação, tal como ocorre no jogo Prince of Persia – Sands of Time. Neste jogo, o jogador passeia por telas usando as habilidades acrobáticas do príncipe da pérsia, que realiza manobras realmente fantásticas com comandos simples do joystick. Eventualmente, monstros aparecem e o puzzle da lugar a um game de ação, mas que exige menos coordenação do jogador do que um jogo cem porcento baseado em ação exigiria.

Jogos de horror, tais como Resident Evil, também tem aparecido com frequência. O título também possui uma quantidade grande de ataques, a maioria de projéteis, mas seu principal foco ainda é a exploração de mundos em três dimensões.

Muita tensão em Thief - The Deadly ShadowsFinalmente, outra variação atual do gênero são os jogos de espionagem, tais como Thief, Splinter Cell e Metal Gear, onde o jogador deve se movimentar pelos cenários sem chamar a atenção de guardas. Os puzzles são substituídos por cenas de tensão, onde a criatividade deve ser usada para descobrir passagens e o desafio de manter-se oculto nas sombras. Em alguns gêneros desse tipo, os combates ou são muito simples, ou inexistentes. É comum encontrar cenários desse tipo em jogos de primeira pessoa também, tal como ocorreu em Wolfstein – Return To Castle.

Elementos de design

Bob Mates, em seu livro Game Design, ressalta que o primeiro e o mais importante elemento para esse gênero é a história. Ele afirma até mesmo que sem uma boa história, você não terá um bom jogo de aventura. Jogadores desse gênero esperam que a história ou seja imersiva, ou bem-humorada.

Lado-a-lado com a história, está a existência de quebra-cabeças. Bons quebra-cabeças podem envolver procurar itens pelo cenário, deslocar-se pelo cenário sem chamar atenção, ou mesmo desafios de lógica, pura e simples. Uma quantidade de quebra-cabeças pequena pode levar a um jogo repetitivo e fácil de se resolver. É comum nesses jogos variações do mesmo quebra-cabeça, mas com pequenos elementos que o tornam mais difícil. Algumas regras interessantes ao se bolar quebra-cabeças são:

  • Cada quebra-cabeça deve ser apropriado para o seu ambiente. Isto é, o jogador deve ver sentido em ter que passar por ele. Então, prefira desafios de lógica se ele estiver tentando abrir uma porta ou responder a uma senha e use elementos do cenário que fazem sentido ao propor um desafio atlético;
  • Alguns quebra-cabeças devem ser importantes para a história do jogo. Pense em como o vilão usou o quebra-cabeças para reduzir o impedir o herói e, justifique os principais quebra-cabeças através de cenas importantes da narrativa. Isso ajuda a tornar todo o ambiente muito mais imersivo;
  • O quebra-cabeça não pode ser fácil demais, e nem impossível. Teste seu jogo com diversos usuários e fique atento a esse detalhe. Não coloque um quebra-cabeça difícil demais no início do jogo, e nem um fácil demais no final. Os testes também ajudam a achar aquelas situações onde um jogador é capaz de achar uma brecha e pular totalmente o quebra-cabeças;
  • Não pense no quebra-cabeça como algo com a finalidade única e exclusiva de frear o jogador e garantir mais horas de gameplay. Comumente, desenvolvedores que pensam nisso repetem várias vezes o mesmo quebra-cabeça, ou põe desafios sem sentido, que frustram o jogador.

Além da história e dos quebra-cabeças, uma interface simples é uma ótima opção para esse gênero. E isso envolve desde poucos elementos na tela, como facilidade em manejar os controles e de executar as ações. Este gênero não é o local apropriado para experimentações de novas interfaces, a menos que seus testes indiquem que isso realmente melhora muito a jogabilidade. Apostar nos padrões é sempre uma boa opção.

Outro elemento importante é a exploração. A exploração envolve alimentar a curiosidade do jogador, e sacia-la aos poucos. Você pode criar um jogo exploratório com poucos cenários, como o caso do Day of The Tentacle, ou ainda um jogo gigantesco, cheio de belas paisagens, como Myst. Normalmente, nesse gênero, a exploração é feita sem o uso de muito texto, como seria no caso de um jogo de RPG.

A exploração do mundo também pode ser linear ou não linear. A grande linearidade dos jogos de aventura, apesar de ser esperada, é também uma das grandes reclamações do gênero. Uma boa opção é adotar um gênero misto. Crie uma série de ambientes com opções abertas, onde a solução desse ambiente moverá a história linearmente para o próximo ambiente, até que um final seja atingido.

Técnicas de programação comuns

Jogos de furtividade fazem grande uso de máquinas de estados finitos. Guardas têm diversos estados, como alerta, sonolento, desconfiado da presença do jogador ou mesmo atacando e furioso.

Um bar para a linguagem lua em The Secret of Monkey IslandEm outros trechos, um comportamento mais cinematográfico, ou mesmo mais detalhado por ser necessário, para garantir uma boa evolução da história. Por isso o uso de scripts é muito comum. Scripts também permitem ao game-designer fazer um ajuste fino de certos quebra-cabeças, ou mesmo alterar certos elementos da narrativa por conta própria, sem a necessidade de recompilação do código. Uma curiodade que demonstra a importância dos scripts para o gênero, é que cada Monkey Island possuia um bar com o nome da linguagem de script da sua engine. Nas primeiras versões, ele se chamava Scumm bar e, no último titulo da série (Escape From Monkey Island), o bar mudou de nome para “Bar Lua”, fazendo referência a linguagem de script brasileira usada no jogo.

Sistemas de mensagens também são uma técnica comumente usada em jogos desse tipo. Mensagens podem ser enviadas quando o jogador pressiona um certo botão, resolve um certo puzzle, pega um determinado item, ou ultrapassa uma certa sessão do jogo. Um jogo de ação baseado em furtividade pode usar mensagens para modelar as percepções dos guardas, ou mesmo para que um garda alerte outro da presença do jogador.

O livro AI Game Engine Programming, de Brian Schwab, vai ainda mais longe, e ressalta o uso de lógica Fuzzy em jogos de furtividade. Cada guarda recebe uma quantidade imprecisa de informação a respeito de jogador, e pode substuir scripts pela lógica fuzzy para modelar um comportamento mais inteligente com a informação que tem disponível. Isso também permite ao jogador confundir os guardas, seja gerando sons em outros ambientes (jogando uma rocha, ou usando um gravador com sons de passos) ou vestindo a roupa de outro guarda quando estiver longe. Com essa técnica, guardas podem ter diferentes níveis de desconfiança em relação a determinadas áreas do mapa.

Últimas recomendações

Há uma grande quantidades de jogos da LucasArts que podem ser baixados e jogados em sites como o Abandonia. Eles podem ser jogados tanto através de emuladores, tais como o Dos Box, quanto através da Scumm VM, disponível para download na internet.

Procure também material sobre esse gênero em livros de game design, inteligência artificial , na área de redação, produção literária ou mesmo de cinema. Ler muito auxilia a montar histórias de ótima qualidade, essenciais para esse gênero.


Ações

Informações

9 respostas

26 08 2007
Marcos

Muito bom o conteúdo do artigo, esse gênero eu gosto muito, misturar exploração, puzzle e um pouco de ação é a combinação perfeita para um bom jogo eletrônico.

26 08 2007
Bruno

Muito bom o artigo Vinicius, parabens!

Concordo com você, além de gráficos, jogabilidade, sons, o jogo precisa ter uma historia imersiva, ou com bastante humor para agradar o jogador.

27 08 2007
Herbert Pimentel

Vinicius, meus parabens pela postagem bem interessante, de fato nem eu mesmo tinha notado como os jogos de aventura (pura) tinha se mesclado com outros generos. Vale ler também pelas dicas, principalmente pra mim que objetivo desenvolver um adventure ;)

um grande abraço meu…
Herbert Pimentel

27 08 2007
Mark

Parabéns, seu blog vem me sendo muito útil
Acho o conceito RPG realmente muito grande e as vezes complexo.
E concordo com você que um bom jogo de aventura precisa de bons puzzles, jogabilidade façil,e um enredo perfeito é aquele que envolve o usuario a buscar mais até o fim do jogo.

Abraço..
Marcos Vasconcelos

28 08 2007
David Buzatto

Fala Vinícius!

Muito bom o post!

Quando vc mencionou o Full Throtle meus olhos encheram de lágrima :’( de saudade.
Foi o primeiro jogo de PC que eu comprei.

Gosto do Prince of Persia, principalmente o Warrior Within que vem depois do Sands os Time.

Seria legal vc ter citado o pai dos adventures do estilo do Resident Evil, o Alone in The Dark.

Muito bom! Parabéns! Abraço!

30 08 2007
pigmeu

Achei que você não deu a devida atenção à série Monkey Island. Deixou este fã do Guybrush Treepwood frustrado. hehehe

Mudando de assunto, viu que acharam o adventure mais velho da história?

http://groups.google.com/group/rec.arts.int-fiction/browse_thread/thread/607acaf1a279d4dd/bd53b672a185d177#bd53b672a185d177

É escrito em FORTRAN!!

30 08 2007
vinigodoy

Tinha visto sim. É um jogo feito em Fortran e feito por um espeleologo.

Quanto aos Monkey Islands… realmente é um jogo muito bom, como quase todos os do gênero feito pela Lucas Arts. Vontade de descreve-lo não falta… e nem de descrever os Indiana Jones, o Sam&Max, o Grim Fandango, o Day of the Tentacle, o Maniac Mansion, o Full Throttle, etc… etc… etc…

Mas o artigo foi feito para descrever os gêneros, não os jogos. E não deixou de citar esse clássico! ;)

2 10 2007
Silvio Rogério

Olá Vini,

Esqueceu do twinsen odyssey!!!!!!

2 10 2007
vinigodoy

Olá Silvio!
Como eu disse para o Pigmeu, quem me dera poder colocar todos os bons jogos de aventura num só artigo! Mas fica aí a sua dica para galera! ;)

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