Devemos impedir que profissionais não formados em informática ingressem no mercado de trabalho ocupando cargos de programadores ou analistas de sistemas? Devemos definir um teto salarial para a profissão?
Muitos são da opinião de que sim. De que essas medidas tornariam o mercado menos prostituído e garantiriam melhor qualidade de vida para quem optou por uma área tão difícil como a informática. Na minha opinião, eu acho que não. Regulamentar a área é importante, no sentido de reconhecer que as profissões existem e, em certo grau, dar a sociedade uma informação clara sobre qual é o papel de cada profissional. Mas a importância para por aí.
O que alegam os defensores
A falácia do piso salarial
O primeiro argumento que eu gostaria de desconstruir é o do piso salarial. Algumas pessoas acham que seria possível ganhar mais, simplesmente através de um decreto do governo, dizendo que um programador, a partir de hoje, deveria ganhar X reais.
O primeiro pensamento econômico e mais simples que imediatamente destrói esse argumento é: Quem vai pagar essa conta? O simples surgimento da lei não deixará as empresas mais ricas. Então, temos aí duas possibilidades ao meu ver:
- As empresas irão contratar menos: Isso mesmo! Algumas pessoas serão contratadas pelo tal piso, mas ao custo do cargo de outras. A matemática é simples. Se um funcionário passa a custar 30% mais, basta demitir 1 funcionário a cada 4, e teremos o orçamento equilibrado. Os outros, ficam sobrecarregados assumindo a posto dos seus colegas, além dos seus próprios. Esse é um panorama tenebroso e eu prefiro nem pensar no assunto;
- As empresas irão se tornar mais informais: Sabe o tal funcionário-PJ? Aquele que não tem direito a férias, décimo terceiro e nem está sujeito ao piso salarial? Que não tem qualquer direito trabalhista? E que no fundo é uma prática ilegal? Pois é, ele será ainda mais valorizado pelas empresas.
Os sindicatos, com sua visão esquerdista míope, tentam convencer de que para aumentar o salário, basta os burgueses resolverem abrir mão dos seus exorbitantes lucros e pagar essa conta. Essa visão simplista causa mais mal do que bem. Basta lembrar que boa parte dos empregos está nas empresas pequenas e médias, que estão submetidas a uma carga fiscal escorchante e estão longe de terem lucros exorbitantes. E que, do contrário do que pensam essas pessoas, os empresários querem ver sua empresa crescer, se desenvolver e produzir. Claro que para isso ele vai querer maximizar a curva de gasto/produção mas, já sabemos que programadores num ambiente hostil não produzem bem.
Proteção contra amadores
O segundo ponto dos defensores de uma regulamentação é o da proteção contra os amadores. Esses “prostitutos” estariam acabando com salários ao entrar no mercado exigindo pouco, oferecendo trabalho de baixa qualidade, e “manchando” o nome de profissionais sérios.
O primeiro argumento que tenho contra essa alegada proteção é simples: Liberdade de escolha. Não nossa, mas de nosso cliente. Então, por que ele não teria o direito de escolher um profissional barato, ao custo da qualidade? Digamos que você abra hoje uma empresa, praticamente sem capital para investir, e precise de um website. Você ainda não tem base de clientes ou perspectiva de vendas, mas hoje em dia ter um website é fundamental. Você estaria proibido de contratar um estagiário, ou um profissional de baixo custo. Isso mesmo, proibido? Gostou da palavra? Significa que o governo diz que você é incompetente para fazer essa escolha e que somente alguém certificado por ele pode trabalhar.
O segundo argumento é aquele que qualquer um que cursou uma faculdade nota ao final do curso: Parte dos seus colegas, que está se formando com você, não tem a menor noção do que seja um algoritmo, um computador e você nem sabe como ele chegou até ali. Ele só fala nos anos frustrados que passou lá dentro e como será brilhante sua futura carreira de veterinário, administrador das empresas do pai, professor infanto-juvenil ou qualquer outra profissão bem longe do computador. Esses sim, quando resolvem realmente ir ao mercado, são os verdadeiros prostitutos da área.
O que uma lei de proteção viabiliza para esse tipo de pessoa é a capacidade de vender assinaturas (como já é feito, por exemplo, na engenharia) para quem realmente gosta da área, mas não tem o diploma. E essa pessoa pode não ter esse diploma simplesmente por ter entrado num curso novo, de alguma faculdade, que o MEC resolveu não reconhecer; ou pq no último ano, teve que desistir por problemas pessoais; ou por ser um excelente auto-didata. O motivo não importa.
Finalmente, uma “proteção” dessas não é necessária simplesmente porque empresas sérias não precisam delas para saber o óbvio: Que há mais chances de se conseguir um profissional de qualidade se ele for formado. É simples, pegue um jornal num domingo, veja as ofertas das empresas grandes e boas e veja quantas delas não exigem um diploma universitário, ou não dão preferência para profissionais com experiência…
Meu amigo, minha opinião é de que, se você é um profissional da área e se sente ameaçado por aquele filho do vizinho cheio de espinhas que faz websites por aí, é porque você é um profissional medíocre. Reconheça isso e se aperfeiçoe, ao invés de querer que o governo te proteja atrás de um pedaço de papel.
Leis e responsabilidade penal
Um dos outros argumentos de quem exige uma regulamentação é das leis e da resposabilidade penal. Basicamente diz o seguinte: “Quem deve se responsabilizar caso um software falhe, causando um prejuízo de milhões? Como atestar que houve imperícia por parte da equipe técnica? Ou como a equipe técnica pode se eximir nesse caso, caso tenha feito tudo certo, nos limites de suas capacidades?”
Embora louvável, esse argumento encontra os seguintes problemas ao meu ver:
Para dizer se alguém agiu de acordo com perícia ou não, é necessário regulamentar que práticas são consideradas “oficiais” e quais não são consideradas “oficiais” numa modelagem de software. Isso significa que metodologias se tornarão mais rígidas, processos serão considerados oficiais e que um conselho normativo terá que ser eleito, com o poder de avaliar casos e fiscalizar a construção do software. Exatamente como ocorre com áreas como a medicina ou a construção civil. Agora, sejam sinceros. A informática tem processos confiáveis para a construção de um software? Eles são aplicáveis em todos os sistemas? E nosso cliente está disposto a pagar por tanta robustez? Creio que a resposta, na maior parte dos casos, seja não.
Sem falar, que uma rigidez em processos de informática poderia ser tão prejudicial quanto. Suponhamos que esse conselho decida que para um software ser considerado robusto e bem documentado seja necessário: os diagramas UML do software e um processo de controle rígido, como um CMMI de nível não inferior a 3. Além disso nos prejudicar ao combater metodologias ágeis, por exemplo, tornaria os custos de criar ou abrir uma empresa de software altíssimos.
A verdade é que a maior parte dos sistemas que desenvolvemos não põe em jogo vidas humanas, ou podem gerar catástrofes graves o suficiente para justificar tanto custo. Por outro lado, os que precisam, já são regulamentados pela sua respectiva engenharia ou medicina.
Agora, vejam o projeto de lei de informática que já existe. Ninguém responde a pergunta sobre que processos usar, mas obviamente, já definiram o nome do órgão a quem deveremos pagar parte do nosso salário.
E o que adiantaria?
Se tudo aquilo não melhora a área, o que melhora? Na minha opinião, são as seguintes coisas:
Melhores políticas econômicas
Uma coisa é fato. Seu salário só sobe, se seu patrão tiver dinheiro para pagar um salário melhor. Esse é o primeiro passo. Na economia a lei da oferta e da procura é muito forte e, se vc tiver mais patrões querendo seu serviço e com dinheiro para pagar melhor, melhor para você. Portanto, melhores políticas de impostos, que tornem nossos clientes e contratadores mais simples, estão ao nosso favor. É isso que chamamos de “aumentar a capacidade produtiva”.
O governo deve dar mais possibilidade para quem é pequeno de crescer, e levar os programadores (ou pessoas de qualquer outra área) com ele.
Poderíamos realmente ter uma maior flexibilização da CLT. Sim, amigos, isso significa abrir mão de alguns direitos, em prol de sermos mais flexíveis e mais contratáveis. Em prol de viabilizarmos outros e bons negócios.
Mecanismos de certificação
Embora eu tenha dito que a lei não devesse barrar quem não é certificado, eu não estava negando a importância dos certificados. Um mecanismo de certificação sério não só ajuda a área a se definir, como também ajuda os clientes a saberem quem potencialmente tem qualidade, e quem não tem. Também valoriza os profissionais que estudaram determinadas áreas, e facilitam a entrada no mercado de trabalho de quem ainda não tem experiência profissional. Obviamente, para que essa medida dê certo os mecanismos:
- Devem ser suficientemente rígidos, para não certificar qualquer turista que faça a prova;
- Devem ser coesos, no sentido de dar “nome aos bois” corretamente e um certificado de “programador pleno” ter um significado palpável para os contratantes. Nesse ponto, uma regulamentação do mercado é interessante;
- Devem abranger conteúdos que realmente são valorizados pelo mercado (do contrário do que acontece com o poscomp hoje).
O certificado tem um papel adicional, que não pode ser imposto por lei. Obviamente, um profissional com anos de carreira e um portifólio de sucesso, pode usar esse mesmo portifólio, ao invés de se certificar.
Falar a língua do cliente
Infelizmente, ainda não falamos a língua do nosso cliente. Ele não está sabendo escolher, e a culpa também é nossa. Temos que melhorar nossa capacidade de comunicação. Temos que dar a ele mais subsídio, para saber diferenciar um trabalho de qualidade de um ruim, para saber contratar.
Para o cliente, não interessa saber se o sistema é em PHP ou em java. Não interessa saber se usamos métodos ágeis ou totalmente waterfall. Interessa saber sobre custos, prazos e se o problema dele será ou não atendido.
Então, como convencê-lo de que estamos trabalhando direito? Eu sinceramente não sei. Mas não se pode negar que um dos grandes méritos dos métodos mais modernos de desenvolvimento envolve ter o cliente ao lado, acompanhando o desenvolvimento e se inteirando do processo. E também envolve o processo dizer que os programadores devem estar abertos a feedbacks constantes.
Não se acomodar
Por último, mas não menos importante. A área só melhorará para você, se você não se acomodar. Lembre-se que o mercado paga mais para os melhores. Se você está numa empresa ruim, troque de empresa. Eu sei que não é fácil, envolve riscos e nem sempre um emprego estará disponível no dia seguinte, mas na nossa área ainda há muito emprego e muita demanda.
Se você não está bem empregado, procure reavaliar-se e ver se a culpa não é sua mesmo. Muitas vezes é. Busque oportunidades e arrisque. Faça uma poupança, que te permite ter esse tipo de mobilidade.
Procure fazer pós-graduação ou mestrados. Se não pelo conhecimento, faça pelo networking, destaque-se busque oportunidades. Você talvez já tenha feito algum blog, na esperança de se tornar mais conhecido (ou pq todo mundo no seu fórum favorito tem um). Mas pergunte-se. O que meu blog tem de diferente dos outros? Por que eu chamaria atenção com ele? Estou criando com ele um bom portifólio, ou só estou mostrando o quão incompetente eu sou?
Só para concluir
Bem, essas são apenas opiniões pessoais. Mas creio sinceramente que achar que uma regulamentação rígida nos protegeria é cair na inocência de que o governo é capaz de nos proteger. Porém historicamente, o governo só tem feito o contrário: se mostrado um péssimo administrador, um péssimo fiscal e um ótimo agente para arrancar nosso dinheiro.
O governo não só não nos protegeria, como uma regulamentação rígida tornaria a área mais burocrática, mais lenta e nosso país menos competitivo.